quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Avatar: epifania visual


Meu objetivo com esse post não é relatar, mais uma vez, a evolução tecnológica alcançada pelo diretor James Cameron com o projeto Avatar, que culminou em um filme marcante na história do cinema mundial. Minha visão é puramente sensitiva, de espectadora. Fiquei enlouquecida com as cores, as idéias empregadas na concepção da fauna e da flora do planeta Pandora e com a descrição do relacionamento dos Na’vis com o seu habitat.

A experiência sensorial, em 3-D, remete a um mundo em que os seres têm uma ligação umbilical com o meio em que vivem e a “mãe natureza” promove o equilíbrio de todos os elementos presentes em seu ecossistema. A pesquisa e o desenvolvimento de recursos tecnológicos transformaram-se em uma obra homogênea. Tudo flui com muita naturalidade no mundo fantástico de Pandora. Parece até um paradoxo, mas quem viu o filme me entenderá. É uma epifania visual.

Com esse investimento maciço na criação de um meio ambiente alienígena repleto de criaturas encantadoras e relevo exótico, a performance dos atores acaba se diluindo na obra. Eles são os coadjuvantes do espetáculo. Não conseguimos prestar muita atenção aos detalhes das expressões e maneirismos dos atores, na forma humana ou como avatares.

A longa espera pela oportunidade de assistir ao filme valeu a pena. Além da inovação tecnológica, Avatar desperta a consciência do público para as questões ecológicas e deixa uma mensagem clara: destruir a natureza em nome da ganância é decretar o fim da humanidade!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Nova York, eu te amo

O filme Paris, te amo (2006) originou a franquia Cidades do Amor, que irá lançar olhares sobre histórias transcorridas em várias capitais mundiais, incluindo o Rio de Janeiro. O segundo filme da série trata das peculiaridades de Nova York, mostrando ao público personagens e lugares típicos da cidade cosmopolita.

Observamos a heterogeneidade de culturas, profissões e sentimentos dos nova-iorquinos pelos movimentos da câmera que os acompanha no Central Park, em bares, esquinas, comércio, em meio ao barulho das buzinas, dos taxis...

Nova York, eu te amo é composto por 11 histórias curtas e traz diretores badalados, como o alemão de origem turca Fatih Akin, a indiana Mira Nair e até a atriz Natalie Portman, que também atua em um dos episódios.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amantes


Amantes. Aqueles que se amam perdidamente? Um casal que se entrega a sentimentos cálidos em encontros fortuitos? No caso particular do filme protagonizado por Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow, trata-se de um triângulo amoroso construído ao acaso. O ponto de partida dessa história é a tentativa de suicídio de Leonard, personagem de Phoenix, que o leva de volta à casa materna, um lar judaico estanque à passagem do tempo.

No bairro periférico de NY, trabalha junto com seu pai no negócio familiar, uma lavanderia/ tinturaria. Quando conhece Michelle (Paltrow), sua vida se transforma e ganha cores. Ela é a possibilidade de romper com o peso das raízes e desfrutar de uma vida nova. Mas dois senões atrapalham os planos de Leonard: a bela está envolvida em um relacionamento conturbado com um advogado casado e, além disso, ele mantém um namoro de conveniência com Sandra (Vinessa Shaw), filha de amigos e futuros parceiros comerciais da família.

A trama talvez possa ser classificada como previsível, mas esse seria um julgamento primário. Leonard carrega uma obscuridade pouco compreendida proveniente de uma ferida do passado mal curada. Cicatrizes nos pulsos e um olhar vazio são os companheiros rotineiros do protagonista. São muitas lacunas. O que fazer com as horas, os dias, os meses?

As imagens também carregam elementos sombrios. O tempo é frio, cinza, chuvoso. As fotos que registram passagens alegres são produzidas em preto e branco. A história poderia ter se desenrolado há 30 anos ou agora. Não faria diferença. Os sons são mais fortes que os diálogos. A música frenética na balada que quebra a cadência melancólica da película; o celular frenético de Leonard que não para de receber mensagens tristonhas de Michelle; as ondas; um som sutil, na festa da família (pasmem, é uma canção brasileira)!

Enfim, é uma ode ao sofrimento, ao arrependimento, aos clichês da vida e, sobretudo, ao conformismo. Viva as tradições!

Ficha Técnica
Título original: Two Lovers
Duração:110 minutos (1 hora e 50 minutos)
Gênero: Drama
Direção: James Gray
Elenco: Joaquin Phoenix (Leonard Kraditor); Gwyneth Paltrow (Michelle Rausch) e Vinessa Shaw (Sandra Cohen)
Ano: 2009

País de origem: EUA

quarta-feira, 25 de março de 2009

O Casamento de Rachel

Uma câmera frenética acompanha os passos de Kim (Anne Hathaway), em sua volta para casa, após passar pela rehab. O lar está em polvorosa em função dos preparativos do casamento de sua irmã, Rachel. Este é o ponto de partida da trama de O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, 2008), que desmembra a relação dessa família marcada pelas consequências dos conflitos e vícios de Kim.

Nessa película, temos uma Anne Hathaway muito diferente da bonequinha de luxo de O Diário da Princesa e O Diabo Veste Prada. Perturbada, sua personagem Kim vive em colisões: de carro, com a mãe, a irmã, com seus próprios sentimentos. A história correlaciona a luta de Kim para se entender e se reintegrar à família e o matrimônio que dá nome ao filme, caracterizado por ritmos e cores multiculturais.


A disputa de Rachel e Kim pelas atenções da família extrapola a tela e confunde o espectador, que indaga: quem é a protagonista? Fica difícil concluir algo, uma vez que a eclosão das discussões das irmãs se confunde com os “solos” de Kim e a miscelânea reinante na festa de casamento. Afinal, Rachel se casa com Sidney, um músico negro rodeado por amigos de etnias e costumes distintos entre si. Hip hop, influências indianas, soul, jazz e até samba e mulatas requebrando compõem esse caldeirão.

A obra reúne explosões de emoções no cerne desse clã que ambiciona cicatrizar as feridas e seguir em frente, além de coroar o trabalho de Hathaway, indicada ao Oscar de Melhor Atriz neste ano por sua atuação.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A manipulação da montagem — Eisenstein

Como comentei no post anterior, ingressei em um curso sobre a história do cinema, e irei alimentar o blog com as minhas impressões sobre os assuntos tratados em aula. A etapa inicial do curso abordou os primórdios do cinema, a evolução da linguagem cinematográfica — que passou do documental à ficcção —, e a estruturação do classicismo, ou seja, a criação das "regras esquemáticas" para a produção de um filme. Os personagens mais importantes desta fase inicial são George Méliès e Charles Chaplin.

O segundo encontro teve início com a apresentação da escola russa, que se posiciona contra o classicismo e busca formas novas de manipulação das histórias, por meio da montagem das películas. O principal representante dessa quebra da lógica criada no cinema norte-americano foi Sergei Eisenstein, idealizador do " O Encouraçado Potemkin" (1925), que discorre sobre uma rebelião de marinheiros durante a Revolução Russa. Eisenstein, com formação em engenharia e arquitetura, racionalizava os fotogramas, salpicando em cada um deles elementos simbólicos para se referir à transferência do poder da elite para a classes oprimidas.


O destaque do filme é uma sequencia ambientada na escadaria da cidade de Odessa. As cenas iniciais, banhadas em luz, são substituídas pelas imagens chocantes de repressão violenta exercida pela guarda do czar. A própria escada já representa a diferença entre as classes. A passagem da mãe assassinada, cujo carrinho de bebê desce degraus abaixo, é sempre citada como uma das mais famosas da história do cinema (fonte: Wikipedia).

Nessa época (década de 20), também surgem as primeiras teorias sobre o cinema. Os pensadores discutiam principalmente se a mídia deveria ser utilizada a serviço da população, reproduzindo com a maior fidedignidade possível histórias verídicas; a manipulação dos fatos de forma a recriar significados (estilo personificado por Eisenstein); e o cinema reflexivo, ou seja, ser fiel aos acontecimentos mas com uma visão analítica.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Cinema a serviço da criatividade

A criatividade é essencial para o desempenho da minha função. Há vídeos e treinamentos específicos sobre o tema, mas eu prefiro entrar em contato com assuntos de que gosto ou diferentes dos quais lido no dia-a-dia para ampliar meu repertório.

Ingressei recentemente em um curso sobre a história do cinema, cujo conteúdo versa sobre os primórdios da sétima arte e as principais manifestações cinematográficas ocorridas na Europa, Estados Unidos e Índia, passando pelo cinema brasileiro.

O que me achou a atenção na primeira aula foi justamente a evolução rápida dessa mídia e o desenvolvimento de sua estrutura, no início do século XX, que perdura até hoje.

A criatividade está lá, em cada trecho dessa trajetória. Destaco o filme considerado o pioneiro do gênero de ficção, Viagem à Lua (1902), do francês George Méliès, um curta com oito minutos de duração que mostra a visão fantasiosa do homem sobre o satélite terrestre quase 60 anos antes de Neil Armstrong realizar a façanha de pisar lá, em 1969.

Em um salto gigantesco ante as limitações técnicas da época, em 1914 chega às salas de projeção o sensacional O Vagabundo, de Charles Chaplin, que consagraria o personagem Carlitos como o ícone do cinema mudo. Nesse filme, temos roteiro, figurino, montagem, iluminação, planos de câmera diferentes, densidade nos personagens, ou seja, tudo o que observamos nas películas atuais.

Esses exemplos são fundamentais para acreditarmos que pensar diferente e aproveitar os recursos que temos para inovar sempre surte efeitos surpreendentes. George Méliès era um ilusionista e transportou as técnicas que usava nos palcos para as telas de cinema. Chaplin se transformou em um mestre da comicidade abusando dos trejeitos e da força das expressões faciais para burlar a ausência de áudio no cinema.

Foi apenas um sonho...

Com o filme Foi Apenas um Sonho (Revolucionary Road), o diretor Sam Mendes, aclamado por Beleza Americana, revisitou o subúrbio americano para revelar a plasticidade e a falta de escopo e sentido no cotidiano do casal April e Frank Wheeler. Os atores Kate Winslet e Leonardo Di Caprio reeditam a parceria de sucesso de Titanic, mas a tônica do relacionamento não se assemelha em nada ao romantismo da dupla Jack/Rose. Suas personagens estão na casa dos trinta anos, dois filhos; ela, dona de casa entediada; ele, funcionário de um escritório sem apreço pela função que desempenha.

Em flashes rápidos, são descortinados os anos incipientes da história de amor que começou com uma conversa e uma dança e acabou rendida às convenções. April ambicionava a carreira de atriz; Frank ainda não definira qual rumo dar à sua existência. April declara ao futuro marido que ele é a pessoa mais interessante que conhecera. Com o tempo, a admiração cede espaço ao desalento. Após o casamento, o nascimento dos filhos e a cristalização da vida doméstica e pacata, ela é acometida por um "vazio sem esperança". Uma espécie de Madame Bovary da década de 50 ou mesmo um simulacro das mulheres deprimidas de As Horas, película baseada no livro Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf.

Para acabar com a monotonia, eis que surge a brilhante idéia: "Vamos morar em Paris!". Frank esteve na Cidade Luz durante a 2ª Guerra, e, segundo ele, "lá as pessoas viviam de verdade". Com o novo plano traçado, até respirar ficou mais fácil e a harmonia volta a reinar entre eles. Ao comunicarem a notícia da mudança, os colegas de trabalho de Frank, os vizinhos, enfim, todos ficam boquiabertos com a atitude rebelde, "imatura" e "descabida" do casal.

As ilusões, entretanto, duram pouco. A falta de sentido que corrói ambos é dissecada pelo ex-matemático John, vivido por Michael Shannon (indicado ao Oscar 2009 como melhor ator coadjuvante), filho da amiga do casal Helen Givings (Kathy Bates).

Considerado "perturbado", após internações em instituições psiquiátricas e submetido a sessões de choques elétricos, cabe a ele a missão de verbalizar o improferível e dar o start na tensão velada.As agressões morais, traições e mágoas eclodem e minam qualquer chance de reconciliação. O amor estava extinto.

Os embates de ideias entre Winslet e Di Caprio arrepiam e criam rápida identificação com o público. Impossível não se questionar: "O que quero fazer com meu futuro?". Para quem gosta de refletir sobre a vida ou de uma história que fuja do rótulo "Blockbuster", vale a pena conferir!